Sem medo de ser bonita
Ambição é querer ter. Ganância é querer ter tudo ou mais do que os outros têm. Inveja é não querer que os outros tenham. Hoje abordo o caso da aluna da Uniban. Chocada com o comportamento dos universitários. Não vou tecer críticas nem comentar seu vestido, o cumprimento da saia ou aparência das pernas. Cada um tem o direito de se vestir como se sente bem, e nada havia de chocante na aparência da garota. De um lado a moça: estudante do período noturno, antes de ir a uma festa precisava ir à faculdade. Fato corriqueiro, que já aconteceu com muitos estudantes. Até aí, nada de mais. A diferença é que ela se arrumou – muito, até demais – e apareceu na faculdade com uma estampa inusual para a falta de feminilidade que impera nesses ambientes. Por medo de serem apontadas como vagabundas, que tentam sucesso neste mundo masculino apelando à beleza física ou aparência diferenciada, muitas moças optam por se vestir de forma masculinizada, escondendo toda a carga feminina de sua condição de mulher, não usando qualquer maquiagem, não mostrando vaidade. Cada um tem sua opção de vida, devemos respeitar. Mas cientes que beleza, capacidade e inteligência podem coexistir em uma mesma mulher, como o oposto também pode ocorrer. Assim, Geyse apareceu na faculdade toda produzida, visando o programa com o namorado depois das aulas. Mas não foi vista desta maneira ingênua por colegas – homens e mulheres. De outro lado os universitários: desacostumados de verem a passagem de figura sensual e feminina, sentiram-se invadidos. E reagiram. Por medo. E inveja. Medo de seus instintos – bestiais e primitivos. Medo de conviverem com uma mulher que se assume como tal, e não teme se mostrar, arrumada, bonita, exalando sensualidade e segurança. Medo de sua própria aparência, tão banal, sem atrativos, sem graça, e então fortemente ameaçadas pela colega que ousou sair da mediocridade e se mostrar mulher. E inveja. Esse sentimento – mencionado desde a Bíblia – que tal qual erva daninha domina a maioria das pessoas. Sentimento mais dos mais baixos e destrutivos. Inveja de quem não tem medo de ser feliz. Inveja de quem mostra seus dotes impunemente. Inveja de uma mulher que tem a coragem – ousadia suprema – de mostrar sua feminilidade num mundo dominado pelo feminismo e pela masculinização.
Inveja de uma mulher segura da própria aparência. Misturados o medo de alguns e a inveja de muitas, o resultado explosivo – e lamentável – foi a agressão verbal e tentativa de agressão física e sexual sofrida pela aluna. E o pior é que tudo se deu em uma universidade. Onde a cabeça de todos deveria estar aberta às diferenças, positivas ou negativas. Onde a mulher deve ser vista de igual para igual - sem ter que se esconder em aparência masculina ou ausência de atrativos; mas, linda ou feia, estar ombro a ombro com os colegas homens. O ambiente universitário sempre foi o território livre, a vanguarda do pensamento filosófico, existencial e antropológico. Hoje vi que foi reduzido a um mundinho mesquinho, capaz de agredir uma mulher somente porque estava bem arrumada. Esses estudantes, em tese, representam o futuro do país, o futuro do pensamento do país. Triste, muito triste. Demonstraram que não têm a menor condição de serem considerados universitários (a universidade para todos fatalmente desembocaria nesse esgoto).
A violência desencadeada foi assustadora. Esses mesmos estudantes que se arvoram em censores da moralidade praticam trotes com violência física, psicológica e sexual contra calouros indefesos.
Ou seja, quando estão em turma são valentes.
Isso tem sido um problema na sociedade. As pessoas se ajuntam para adquirir coragem e vulnerar os solitários e/ou indefesos. Grande coragem. O futuro do país está nas mãos desses despreparados, sem cultura, desconhecedores da história, das tragédias causadas por absolutistas e preconceituosos. E, pelo andar da carruagem, logo as mulheres estarão proibidas de frequentar universidade e de sair às ruas sem a burca.
Escrito por Alice às 08h49
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Momento poesia
O GRITO Se ao menos esta dor servisse se ela batesse nas paredes abrisse portas falasse se ela cantasse e despenteasse os cabelos se ao menos esta dor se visse se ela saltasse fora da garganta como um grito caísse da janela fizesse barulho morresse se a dor fosse um pedaço de pão duro que a gente pudesse engolir com força depois cuspir a saliva fora sujar a rua os carros o espaço o outro esse outro escuro que passa indiferente e que não sofre tem o direito de não sofrer se a dor fosse só a carne do dedo que se esfrega na parede de pedra para doer doer doer visível doer penalizante doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse (Renata Palotini em A Faca e a Pedra, 1965)
Escrito por Alice às 23h42
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Cotidiano
Je me sens libre comme une bulle de champagne / Libre d'escalader les montagnes Moi j'ai mon visa pour les folies / J'ai mon passeport couleur de la vie (Visa pour les beaux jours, Eddy Marnay) Amanhece. As cortinas filtram uma luz tênue que avisa o final da noite. Acordo. O corpo diz NÃO!, a razão responde É hora! Se pudesse dormir mais meia horinha... mas é preciso levantar. O dia começa e o chuveiro tira as últimas lembranças da noite. Aí tudo engrena e a vontade de dormir fica esquecida por muitas horas. Às vezes dou uma paradinha para pensar na vida e acho que todos os dias se arrastam iguais, é trabalho, trabalho, cansaço, vontade de tanta coisa que ficou para trás, saudade de tantas pessoas que ficaram por aí... a vida é só trabalhar e pagar contas. Mas fica muito chato viver se pensar assim. Então busco inspiração para ver o que tem de diferente nos dias: quando a brisa se torna vento, e o vento tempestade. Olho se o mar está verde (sol!) ou cinza (lá vem chuva). Preciso sair para comprar qualquer coisinha mais insignificante (por exemplo, material de limpeza). Mas aí dou o up grade do dia: me arrumo, saio, atravesso a avenida e vou pelo calçadão da praia até o mais perto possível do meu ponto de chegada, sentindo a beleza do mar, vendo as pessoas caminhando, outras aproveitando a praia durante a semana – que inveja - (só pode ser turista, não dá para ir à praia todo dia e trabalhar)... Na volta aproveito para uma casquinha de sorvete, e pronto: já dei um agradável passeio inesperado – o dia já foi diferente... Uma obrigação se transformou num prazer. Tantas coisinhas simples podem ser feitas para enfeitar o dia... na pausa do almoço ouço – de novo – TUA, cd da Maria Bethânia, maravilhoso, repertório especial, voz inigualável... e outras cores entram no meu mundo. Tédio? Nunca, que isso é coisa de quem não tem o que fazer. (ainda não comentei o caso da Geyse, aluna da Uniban, que mais parecia talibã, mas está na pauta, o tempo anda meio curto...)
Escrito por Alice às 05h56
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Mortes anunciadas
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. (Fernando Pessoa) Há matéria, na Folha de hoje, sobre o suicídio. Além do choque para as pessoas que convivem com o suicida e ficam estarrecidas com aquela morte, ainda há o invencível e inevitável sentimento de ter falhado. Falhado porque não percebeu o desespero daquela alma, falhado por não ter tirado a cortina negra que escurecia os pensamentos do suicida, falhado por não ter evitado o gesto. Mas ninguém poderia evitar o suicídio em si. Depois que a decisão de morrer é tomada, dificilmente alguém poderá evitar esse ato. Talvez se possa ajudar a evitar a idéia, antes que ela surja ou logo que isso aconteça. Mas não é fácel entrar na alma de alguém e saber o que pensa na verdade outra pessoa. Convivi com alguns suicidas, chorei suas mortes e sei que ninguém tem culpa do ocorrido. Mas é difícil, muito difícil, conviver com a sensação que poderíamos ter feito alguma coisa e nada fizemos. Inevitável sentirmo-nos assim. E o que é o suicídio? Um gesto de coragem ou covardia? Um gesto de desespero ou esperança em algo melhor? Alguns casos podem-se entender, pessoas que estão acometidas de moléstias terríveis, sem qualquer chance ou esperança de cura, sofrendo no corpo as dificuldades da doença e na alma a falta de motivo para continuar vivo... até se entende, embora a religião nos ensine que a morte pertence ao Pai e somente ele poderá tirar-nos a vida. Mas outros casos, a jovem que perdeu o ano na faculdade, a mulher madura e centrada que se aposentou e não mais se sentiu viva, o amigo que se viu envolvido em um processo judicial quase kafkaniano... E assim eles foram ficando pelo caminho, enquanto outros enfrentaram as mesmas situações – doenças, velhice, processos, divórcios, perdas de filhos e continuaram vivos dando testemunho de uma fé inabalável na vida e no sentimento que não há caminho predeterminado, que fazemos nosso caminho ao caminhar. Quando penso nesses assuntos lembro-me de palavras do Padre Zé Mário (quanta saudade desde que ele foi pastorear em outros países e quase não vem ao Brasil): Deus deu a vida – e não a morte – ao homem. Então devemos cuidar da nossa vida com muito carinho e desvelo, porque teremos que prestar contas deste dom ao Criador. Mas Deus guardou para si a morte, não a deu ao homem. Por isso devemos viver sem pensar na morte, sabendo que é inevitável e virá para todos, mas não é problema nosso. Na hora certa Deus cuidará de tudo. Não devemos ignorar que a morte existe, mas não devemos buscá-la nem desejá-la. E assim Padre Zé Mário me deu uma lição para toda a vida, mas que torna difícil entender a razão dos suicidas.
Escrito por Alice às 10h13
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